Esgotos sanitários do Recife contêm carga genética do novo coronavírus inativo

 Esgotos sanitários do Recife contêm carga genética do novo coronavírus inativo

No laboratório, os pesquisadores verificaram que a variação do material genético do coronavírus acompanhou a curva epideomiológica da Covid-19 na capital pernambucana

Pesquisadores do Laboratório de Saneamento Ambiental (LSA) da UFPE encontraram carga genética do novo coronavírus inativo em amostras de esgoto coletadas no Recife, durante quatro meses da pesquisa – de maio a agosto de 2020 – independentemente dos locais serem servidos ou não por redes coletoras de dejetos. Nos primeiros resultados do projeto que desenvolve para monitorar a presença do Sars-CoV2 nas águas urbanas da cidade, a equipe verificou que a variação do material genético do coronavírus acompanhou a curva epidemiológica da Covid-19 na capital pernambucana. “A quantidade do vírus nos esgotos aumentava quando os casos da doença na cidade subiam, e diminuía quando decresciam os índices de pessoas infectadas”, explicam.

Esse monitoramento, que apontou a relação entre o volume de carga viral encontrado nos esgotos e os registros de pessoas contaminadas pela Covid-19, segundo a pesquisa, pode ajudar o Governo a “diagnosticar” bairros ou áreas mais afetadas pelo vírus, de modo coletivo, sem a necessidade de sempre fazer a testagem individual. Dessa forma, o projeto visa ajudar o Estado a desenvolver previamente ações de políticas públicas de enfrentamento ao novo coronavírus nas áreas mais afetadas, como fechamento de comércios locais, instauração de lockdown ou toque de recolher e, até mesmo, vacinação mais cedo dos moradores dessas regiões, antes que muitas pessoas adoeçam efetivamente.

Coordenado pelas professoras Lourdinha Florêncio e Sávia Gavazza, ambas do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da UFPE, o projeto “Covid-19 em resíduos: diagnóstico e medidas de proteção” já é uma realidade e uma ferramenta importante usada em vários países para acompanhar a circulação de drogas ilícitas e micro-organismos entéricos patogênicos, por exemplo. “Em estudos no início de 2020 na Holanda e Espanha, foi encontrado traço genético (RNA) do novo coronavírus (Sars-CoV2) nos esgotos, mesmo antes da detecção de casos clínicos da Covid-19”, explica Lourdinha Florêncio.

BOA NOTÍCIA
A detecção do micro-organismo nas redes de esgoto ocorre porque o vírus é expelido pelas fezes dos infectados (sintomáticos e assintomáticos), atingindo essas vias desde o início da infecção. O estudo destaca que ainda não foi encontrado o novo coronavírus viável nas amostras coletadas, provavelmente porque essas águas também contêm detergentes e outros produtos químicos que inativam o vírus. “Isso é uma boa notícia, pois, pelo menos até agora, as pesquisas mostram que não é possível se contaminar com o coronavírus através dos esgotos sanitários; nós estamos medindo o esgoto bruto mesmo, na entrada, antes que siga para o tratamento, que é o pior cenário. Mesmo assim, o vírus já não estava mais vivo. Até agora, nenhum país encontrou o vírus vivo em sua rede de esgoto. Pode ser que isso mude com as novas cepas, mas isso precisa ser investigado para eventual confirmação”, explana a coordenadora do projeto.

As pesquisadoras advertem, entretanto, que a vigilância epidemiológica nos esgotos não se destina a substituir os testes realizados nos infectados pelo sistema de saúde, mas funciona como um alerta precoce, pois é possível acompanhar a evolução e o surgimento de novos focos nos bairros da cidade e em locais de grande circulação da população (rodoviárias, aeroportos, mercados públicos, universidades, hospitais etc.). “Esse acompanhamento da presença do genoma viral pode fornecer informação sobre a prevalência da Covid-19 na população da área pesquisada, incluindo os assintomáticos e subnotificados pelo sistema de saúde, ou seja, seu foco é a coletividade”, detalha Lourdinha Florêncio.

Dentro desse contexto e em resposta ao Edital Propesqi 06/2020 da UFPE com o objetivo de dar apoio institucional para ações de diagnóstico e prevenção da Covid-19, o Grupo de Saneamento Ambiental da Universidade monitorou a presença do genoma do Sars-CoV-2 não apenas nos esgotos sanitários, mas também das águas de drenagem urbana, pois estão contaminadas pelos esgotos, uma vez que ainda é baixo o nível de atendimento de sistemas públicos de esgotamento e tratamento no Recife. As amostras foram coletadas semanalmente, em três estações de tratamento de esgotos, um hospital e oito canais de drenagem urbana.

REDE NACIONAL
Essa experiência da UFPE credenciou a equipe do LSA a participar da Rede Piloto Nacional de Monitoramento do Novo Coronavírus no Esgoto, proposta e financiada pela Agência Nacional de Água e Saneamento Básico (ANA), sob a coordenação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Estações de Tratamento de Esgotos (INCT-ETEs) Sustentáveis, que é ancorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O objetivo da rede é replicar a experiência do Projeto Monitoramento Covid Esgotos, realizada em Belo Horizonte, para outros estados e cidades do Brasil, de modo a contemplar diferentes realidades regionais e estabelecer as bases para o que futuramente poderá constituir o Programa Nacional de Vigilância Epidemiológica a partir do monitoramento do esgoto. Na UFPE, o LSA conta com a parceria do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika).

“A detecção de Sars-CoV2 em amostras de esgotos na Holanda, Estados Unidos, Austrália e, recentemente, em Niterói e Belo Horizonte, no Brasil, trouxe à luz a perspectiva de que a vigilância epidemiológica poderia ser feita a partir da vigilância do vírus nos esgotos”, reforça a professora Lourdinha. A equipe do LSA sugere para o Recife o monitoramento epidemiológico a partir dos esgotos domésticos, principalmente em bairros de baixa renda, caracterizados por aglomerados urbanos, densamente povoados, com baixos índices de cobertura de esgoto e precariedade nos demais serviços de saneamento básico. Em meados de junho, o LSA-UFPE iniciará o monitoramento em dez pontos da cidade.

Os pesquisadores esperam poder disponibilizar para o Recife, ao término do projeto, mapas de ocorrências de casos; um manual para a seleção de pontos de amostras de esgotos para nortear políticas públicas de monitoramento de Covid-19; indicação dos pontos de coleta de esgotos em comunidades; e identificação da carga viral de Covid-19 nos esgotos de dois hospitais. Ao final, espera-se também contribuir para um diagnóstico massivo da população, em complemento aos testes clínicos individuais.

Notícias relacionadas

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *